Artigo

Tratamentos para enxaqueca crônica: o que a ciência mostra sobre neuromodulação

Por que este texto começa pelo dia seguinte

Quase toda a literatura sobre enxaqueca descreve a crise. Poucos textos descrevem o dia seguinte, que é exatamente quando a maioria das pessoas volta a trabalhar fingindo que está tudo resolvido.

Esse período tem nome: pósdromo. Dependendo do estudo, entre 68% e 80% das pessoas relatam sintomas depois que a dor passa. Num estudo com diário eletrônico, a duração média foi de cerca de 25 horas, e os sintomas mais frequentes foram cansaço (71,8%), dor de cabeça residual (33,1%), dificuldade de concentração (11,7%) e uma sensação que os próprios pacientes descrevem como ressaca (10,7%). Em 88% dos casos tudo se resolve em até 24 horas. Em 12%, passa disso.

Começo por aqui por um motivo prático. Quem conta apenas os dias de dor subestima o próprio prejuízo. Uma crise de doze horas costuma custar dois dias de vida útil, e essa diferença muda a conversa sobre tratar ou não tratar.

Enxaqueca não é uma dor de cabeça forte

Essa é a confusão mais cara que existe sobre o tema, e ela atrasa tratamento por anos.

Enxaqueca é uma doença neurológica, com base genética, que se manifesta em crises. A dor é o sintoma mais visível, não a doença inteira. A crise costuma ter até quatro fases, e nem todas aparecem em todas as pessoas:

  • Fase premonitória (pródromo). Horas a até dois dias antes da dor. Bocejo repetido, alteração de humor, retenção de líquido, rigidez no pescoço, desejo por alimentos específicos, dificuldade de concentração.
  • Aura. Presente em cerca de um terço das pessoas. Sintomas neurológicos reversíveis, mais comumente visuais, com instalação gradual.
  • Cefaleia. Dor tipicamente pulsátil, muitas vezes de um lado só, agravada por esforço, acompanhada de náusea, incômodo com luz e com barulho.
  • Pósdromo. O que foi descrito acima.

No Brasil, um levantamento da Sociedade Brasileira de Cefaleia com cerca de quatro mil pessoas encontrou prevalência de 15,2% na população geral e de 20% entre as mulheres. A Organização Mundial da Saúde classifica a enxaqueca entre as doenças mais incapacitantes que existem, e a comparação não é retórica: ela é medida em anos vividos com incapacidade.

A enxaqueca é uma das formas mais frequentes de dor crônica, e o raciocínio de tratamento se apoia nos mesmos princípios: entender o mecanismo antes de buscar alívio pontual.

Se a sua dor de cabeça se repete toda semana mas você ainda não sabe de que tipo ela é, este texto sobre cefaleia frequente ajuda a organizar a investigação.

O que acontece no cérebro durante a crise

O modelo que hoje explica melhor os achados clínicos é o do sistema trigeminovascular.

Terminações do nervo trigêmeo inervam os vasos e as meninges. Quando essas fibras são ativadas, liberam localmente substâncias inflamatórias e vasoativas, entre elas o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina). O resultado é inflamação neurogênica e sensibilização das próprias fibras, o que se chama de sensibilização periférica.

Se essa ativação se repete, o processo sobe um andar. Os neurônios seguintes, no núcleo trigeminal caudal, ficam sensibilizados. Como a informação vinda das meninges e a informação vinda da pele ao redor do olho chegam aos mesmos neurônios, aparece a alodínia: dor provocada por estímulo que não deveria doer. É o momento em que amarrar o cabelo, usar óculos ou encostar o rosto no travesseiro incomoda. Depois disso, estruturas mais altas também se sensibilizam, e a alodínia deixa de ser local e passa a aparecer fora da cabeça.

Esse encadeamento tem duas consequências clínicas que valem mais do que toda a teoria:

  • A alodínia é um marcador de sensibilização central, e não um detalhe. Na enxaqueca crônica, ela pode estar presente inclusive entre as crises.
  • Uma vez instalada a sensibilização central, o medicamento da crise perde eficácia. É a explicação fisiológica para algo que quase toda pessoa com enxaqueca já percebeu sozinha: o mesmo comprimido funciona se tomado cedo e não funciona se tomado tarde. Não é questão de tolerância nem de força de vontade.

Por que algumas enxaquecas cronificam

A enxaqueca crônica é definida por dor de cabeça em 15 dias ou mais por mês, por mais de três meses, sendo pelo menos 8 desses dias com características de enxaqueca. A passagem de episódica para crônica não é aleatória, e dois fatores explicam boa parte dela.

O primeiro é a própria sensibilização repetida, descrita acima. Crise tratada tarde e mal alimenta o processo que gera a próxima.

O segundo é a dor de cabeça por uso excessivo de medicação, e ela é subdiagnosticada. Os critérios são objetivos: uso de analgésicos simples em 15 dias ou mais por mês, ou de triptanos, opioides e associações em 10 dias ou mais por mês, por mais de três meses. A pessoa entra num ciclo em que o próprio remédio que alivia a crise sustenta a doença. Sair disso exige plano, não repreensão, e frequentemente exige um tratamento preventivo funcionando antes de retirar o analgésico.

A conexão com o pescoço, que quase sempre é tratada como coincidência

Este ponto costuma ser o mais negligenciado da consulta, e é o que abre caminho para a neuromodulação.

Dor cervical não é um acompanhante ocasional da enxaqueca. Numa revisão sistemática com metanálise, a frequência de dor no pescoço em pessoas com enxaqueca foi de 77%, contra 23% em pessoas sem dor de cabeça. Na população geral, a prevalência gira em torno de 3,5%. Entre pessoas com enxaqueca crônica, sobe para 87%.

A explicação anatômica é o complexo trigeminocervical. As fibras que vêm dos três primeiros segmentos do pescoço e as fibras do nervo trigêmeo chegam aos mesmos neurônios no tronco cerebral. Do ponto de vista do sistema nervoso central, informação vinda do pescoço e informação vinda da cabeça chegam misturadas no mesmo endereço.

Daí decorrem dois fatos que interessam ao tratamento:

  • Estímulo doloroso persistente vindo da musculatura do pescoço e do crânio alimenta a sensibilização do mesmo circuito que produz a crise. Pontos-gatilho nessa musculatura têm padrão de dor referida que reproduz regiões classicamente doloridas na enxaqueca, incluindo a região ao redor do olho.
  • Se a entrada periférica alimenta o circuito, reduzir essa entrada é um alvo de tratamento legítimo, e não uma abordagem paralela ou alternativa.

É exatamente esse o raciocínio por trás da neuromodulação.

Neuromodulação com procaína: o que ela busca alcançar

Neuromodulação é o conjunto de técnicas que atuam sobre o sistema nervoso para modular a forma como o sinal de dor é gerado, transmitido e interpretado, sem depender de um medicamento circulando pelo corpo o tempo todo. Se você ainda não conhece o conceito, esta página explica a neuromodulação em detalhe.

A neuromodulação que aplico no consultório usa a procaína, um anestésico local em baixa concentração, aplicada em pontos-gatilho e em campos de interferência: regiões onde o sistema nervoso mantém um padrão de dor ativo, mesmo sem lesão presente naquele momento. Além do efeito anestésico local, a procaína tem ação anti-inflamatória, estabilizadora de membrana e sobre o sistema nervoso autônomo, descrita numa linha de uso clínico que já passa de um século.

O raciocínio é o mesmo explicado acima: se a musculatura do pescoço e do crânio alimenta a sensibilização do circuito que produz a crise, reduzir essa entrada dolorosa é um caminho de tratamento legítimo. O objetivo é agir na origem do que sustenta a dor, e não apenas conter a crise depois que ela já se instalou.

É isso que a técnica busca alcançar, na prática:

  • Redução do estímulo doloroso que alimenta o circuito da crise, tratando diretamente os pontos-gatilho e campos de interferência identificados no exame.
  • Espaçamento e redução de intensidade das crises ao longo do acompanhamento, medidos pelo mesmo diário de dor usado na avaliação inicial.
  • Menor dependência de analgésico durante a crise, à medida que a frequência das crises diminui.

Estudos com o mesmo princípio, aplicação de anestésico local nos pontos que alimentam o circuito de dor, mostram esse tipo de resultado de forma consistente: um estudo randomizado e controlado por placebo em enxaqueca crônica encontrou redução significativa do número de dias de dor de cabeça e de dias de enxaqueca ao longo de doze semanas de aplicações regulares, com boa tolerância. Em pontos-gatilho especificamente, uma série de 52 pacientes com enxaqueca crônica registrou redução de frequência em cerca de 60% dos casos.

A resposta varia de pessoa para pessoa, e por isso cada caso é avaliado individualmente, com acompanhamento objetivo, antes de qualquer indicação. Não é promessa de cura nem de resultado igual para todos: é um recurso real, dentro de um plano de cuidado mais amplo.

Como isso se traduz numa consulta

Uma coisa é o mecanismo, outra é a condução do caso. O que faço, na prática:

Primeiro, caracterizar. Padrão da dor, frequência mensal, duração, sintomas associados, presença e momento da alodínia, sintomas premonitórios e pósdromo, e a contagem honesta de quantos dias por mês há uso de analgésico. Um diário de duas a quatro semanas vale mais que qualquer exame nesse momento. Exame de imagem só entra quando há indicação clínica, e a maioria dos casos não tem.

Segundo, definir o que está faltando. Muitas pessoas com crises frequentes nunca tiveram um tratamento preventivo adequado, ou tiveram um preventivo em dose insuficiente e por tempo insuficiente para se poder dizer que falhou. Neuromodulação não é substituta de preventivo bem indicado.

Terceiro, examinar o pescoço de verdade. Palpação da musculatura do pescoço e do crânio, procura de pontos-gatilho ativos e verificação de reprodução do padrão de dor referida. É esse achado, e não o diagnóstico de enxaqueca por si só, que indica se a aplicação de procaína faz sentido naquele caso.

Quarto, medir. Dias de dor de cabeça por mês, dias com uso de medicação de resgate e impacto na rotina, comparados antes e depois. Redução de pelo menos metade dos dias é o desfecho usado nos estudos, e é um parâmetro razoável para decidir se vale continuar. Sem essa medição, a avaliação vira impressão.

O procedimento em si é minimamente invasivo: agulhas finas, anestésico em baixa concentração, aplicação em consultório. O número de sessões e os pontos são definidos caso a caso. Costuma ser bem tolerado, e o desconforto varia de pessoa para pessoa.

O que a neuromodulação não faz

Por respeito a quem lê, esta seção existe:

  • Não cura enxaqueca. A enxaqueca é uma condição crônica de base genética. O objetivo realista é reduzir frequência, intensidade e impacto, não eliminar a doença.
  • Não substitui tratamento preventivo quando ele está indicado, nem o tratamento adequado da crise.
  • Não substitui investigação quando há sinal de alerta ou mudança de padrão.
  • Não dispensa a avaliação de outras causas, incluindo a dor de cabeça por uso excessivo de medicação, que precisa ser identificada e tratada em primeiro lugar. Nenhum procedimento funciona bem contra um ciclo de rebote ativo.

Sinais de alerta, que valem para qualquer dor de cabeça

Procurar atendimento imediato quando houver:

  • Dor súbita e de intensidade máxima, descrita como a pior da vida
  • Dor com febre alta e rigidez de nuca
  • Dor com alteração de visão, fala, força ou equilíbrio
  • Primeira crise de dor de cabeça significativa após os 50 anos
  • Dor após trauma na cabeça
  • Mudança completa e persistente do padrão habitual da dor

São exceções, mas não esperam consulta agendada.

Perguntas frequentes

Enxaqueca crônica tem cura?
Não. A enxaqueca é uma condição crônica de base genética, e nenhum tratamento hoje disponível a elimina. O que existe, e é bastante, são recursos que reduzem frequência, intensidade e impacto das crises. Quem promete cura está prometendo o que não pode entregar.

Quais são os tratamentos para enxaqueca crônica?
O cuidado costuma combinar mais de uma frente ao mesmo tempo: um tratamento preventivo adequado, quando indicado, controle do uso de analgésico para evitar o ciclo de rebote, e identificação dos fatores que alimentam a sensibilização do sistema nervoso, como pontos-gatilho na musculatura do pescoço e do crânio. A neuromodulação com procaína atua exatamente nesse último ponto, reduzindo na origem o estímulo que sustenta a crise. A combinação certa é definida em avaliação individual.

Neuromodulação com procaína funciona para enxaqueca?
O objetivo é reduzir, na origem, o estímulo que alimenta a crise, o que se traduz, para boa parte dos pacientes, em crises mais espaçadas, menos intensas e com menor necessidade de analgésico ao longo do acompanhamento. Estudos com o mesmo princípio mostram esse tipo de resultado de forma consistente. A resposta varia de pessoa para pessoa e é avaliada individualmente, sem promessa de resultado igual para todos.

Quantos dias por mês de dor já é enxaqueca crônica?
Quinze dias ou mais de dor de cabeça por mês, por mais de três meses, sendo pelo menos oito desses dias com características de enxaqueca. Mas não é preciso chegar nesse número para procurar ajuda: crises que já atrapalham a rotina merecem avaliação.

Tomar analgésico pode estar piorando minha enxaqueca?
Pode. Uso de analgésico simples em 15 dias ou mais por mês, ou de triptanos e associações em 10 dias ou mais por mês, por mais de três meses, caracteriza dor de cabeça por uso excessivo de medicação. É um ciclo conhecido e tem tratamento, mas precisa ser conduzido com orientação, não por interrupção abrupta.

A neuromodulação dói?
São agulhas finas e anestésico em baixa concentração, e costuma ser bem tolerada. O desconforto varia de pessoa para pessoa e é conversado abertamente durante o procedimento.

Preciso parar meu tratamento atual para fazer neuromodulação?
Não. A neuromodulação é considerada como um recurso dentro de um plano mais amplo, não como substituição automática do que já está funcionando. Qualquer mudança de medicação é decidida em consulta.

Referências

  1. Giffin NJ et al. The migraine postdrome: an electronic diary study. Neurology.
  2. Sociedade Brasileira de Cefaleia. Estudo de prevalência de enxaqueca no Brasil.
  3. Iyengar S et al. CGRP and the trigeminal system in migraine. Headache, 2019
  4. Cutaneous allodynia in migraine: a narrative review
  5. Prevalence of neck pain in migraine: a systematic review and meta-analysis. Cephalalgia
  6. Prevalence of trigeminocervical convergence mechanisms in episodic and chronic migraine
  7. Chowdhury D et al. Greater occipital nerve blockade for the preventive treatment of chronic migraine. Cephalalgia, 2023
  8. Karadas O et al. Lidocaine injection of pericranial myofascial trigger points. J Headache Pain, 2013
  9. Robbins MS et al. Trigger point injections for headache disorders. Headache, 2014
  10. Do TP et al. Myofascial trigger points in migraine and tension-type headache. J Headache Pain, 2018
  11. Intravenous procaine therapy: a systematic review

Se as crises já organizam a sua rotina, elas merecem mais que a próxima cartela de analgésico. Agende uma avaliação pelo WhatsApp: (64) 99932-0423. Atendimento presencial em Itumbiara (GO) e teleconsulta para toda a região.

Dra. Danielle Tariana, Médica, CRM-GO 40505. Dedicada ao cuidado de pessoas que convivem com dor crônica, em Itumbiara (GO) e região, presencial e por teleconsulta. Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica.